D. Abade Ernesto Linka, OSBAcolhida do Abade Anfitrião 
aos Participantes da 
2.ª Conferência Internacional sobre Educação Beneditina

É com imensa alegria e satisfação que eu e minha comunidade os acolhemos em nossa Abadia São Geraldo, nas instalações do Colégio Santo Américo, para, ao longo desses quatro dias, nos debruçarmos sobre os grandes desafios que o momento atual deste mundo globalizado e sufocante está nos fazendo para o exercício da nossa missão de educadores beneditinos.

Aqui estamos até mesmo porque todos nós pautamos nossas vidas inspirados na Regra do Nosso Pai São Bento que, no seu prólogo, define nossos mosteiros como "escolas a serviço do Senhor". E nossa vida é, assim, um constante aprendizado para melhor servir ao plano de Deus.

SEU plano é levar a todos o seu Reino - a sua boa semente. Como concretizá-lo? Jesus, no Novo Testamento, confiou essa obra à sua Igreja. O crescimento do Reino pertence a Deus. Mas é indispensável nossa participação para cultivar a terra, para regá-la, para cuidar dela. Sem essa nossa participação, a semente morre e SEU plano não se concretiza.

E Deus assim agiu também no Antigo Testamento. ELE ofereceu a seu povo eleito a Terra Prometida. Disse a Abraão: A Terra já é sua, mas você tem que ir à sua busca. Você tem que deixar a vida tranqüila e confortável que está levando, que você já conhece muito bem, e partir para o novo, o desconhecido, com todos os riscos que uma nova empreitada oferece. E Abraão assumiu o que Deus esperava dele.

Mais tarde, para Moisés, Deus também disse: A Terra é sua, mas sua conquista será árdua e difícil. Você precisa convocar seu povo, que nem sempre irá entender suas propostas e irá criticá-lo; você precisará ter muita coragem para enfrentar o terrível Faraó, para fugir da escravidão do Egito, iniciando uma longa caminhada durante quarenta anos através de um deserto árido e inóspito. Em outras palavras, você precisa exercer uma liderança, dispor-se totalmente ao serviço e ao ministério que espero de você. E, no fim, você nem chegará lá.

Para nós também, personagens deste terceiro milênio, a proposta de Deus é a mesma. Seu plano é o mesmo e SUA expectativa a nosso respeito também é a mesma: ELE conta conosco para cultivar a terra, para regá-la, para cuidar dela. É o que São Paulo deixa patente na sua Primeira Carta aos Coríntios: "Quando alguém declara: "Eu sou de Paulo", e outro diz: "Eu sou de Apolo", não procedeis de maneira meramente humana? Quem é, portanto, Apolo? Quem é Paulo? Servidores, pelos quais fostes levados à fé; cada um deles agiu segundo os dons que o Senhor lhes concedeu. Eu plantei; Apolo regou. Mas era Deus quem fazia crescer." (I Cor 3, 4-7)

Como Abraão e Moisés, que riscos estamos dispostos a assumir em nome DELE hoje? Nossa fé firme deve esperar de Deus o que está além das nossas forças e de nossas expectativas.

É sobre isso que vamos refletir durante estes quatro dias.

Por que o grupo organizador desta Conferência escolheu a Abadia São Geraldo para sediá-la? Acredito que seja pelas características de nossa Abadia, que está completando apenas 50 anos - meio século, porém, de uma história milenar. Suas origens remontam à fundação da Abadia de Panonhalma, na Hungria, no ano 996, por iniciativa do Rei Santo Estevão, que promoveu a conversão do povo húngaro para o Cristianismo. Depois de muitos percalços ao longo desses mil anos, mesmo em momentos em que parecia que nada estava dando certo e que a Abadia estava próxima de seu fim, sentiu-se que Deus estava presente, ajudando nossos antepassados a enfrentar os riscos e a erguer-se de novo, com novas forças, para enfrentar novas situações. É o constante reerguer-se das cinzas para novos desafios, sempre com a fé e a disposição de em tudo servir ao Senhor.

Nossa Abadia, tenho plena convicção disso, não começou por acaso. Seus primeiros monges não chegaram no Brasil por acaso. Nem simplesmente fugiram de uma Hungria oprimida por guerras porque precisavam fugir. Sua vinda para cá faz parte de um plano da Redenção Divina confiado à Congregação Beneditina Húngara em terras brasileiras. Era um momento triste da história de um povo abalado por duas guerras mundiais e, ao mesmo tempo, era um momento em que Deus confiava a monges beneditinos húngaros a missão de ajudar a construir o futuro de uma nação emergente.

A História da Humanidade nos ensina que ela acontece, rs vezes, aos saltos, com momentos de ruptura com um passado até certo ponto acomodado e tranqüilo, para um novo reflorescimento com nova vida, com nova forma de viver os valores perenes.

Meio século na história humana não é tão significativo. O cinqüentenário da Abadia São Geraldo, porém, coincide com a grande explosão do progresso brasileiro e, em particular, com o incrível desenvolvimento por que passou a cidade de São Paulo.

A partir de uma primeira semente - o desembarque no Brasil, em 1931, de um monge solitário -, formou-se uma frondosa árvore rica em indiscutíveis e gratificantes frutos de uma marcante atividade pastoral desde seu início. No começo, acolhendo as primeiras levas de imigrantes húngaros, que aportaram em uma terra totalmente desconhecida e estavam sem rumo. Depois, o trabalho pastoral em paróquias; uma presença atuante junto à população carente e marginalizada que vive ao nosso redor e, principalmente, uma intensa atividade educacional, com a fundação do Colégio Santo Américo em 1951, que desde o seu início foi uma referência, em nossa cidade, como um colégio de alta qualidade de ensino e procurado por famílias com presença significativa na sociedade brasileira.

O Colégio Santo Américo sempre se destacou por ter uma linha pedagógica preocupada em dar aos estudantes uma formação humana integral, que desenvolva tanto as potencialidades intelectuais como os valores religiosos, morais e éticos dos alunos.

Vivemos dias de grande crise e de desintegração da célula familiar, de constantes ataques a valores morais e cristãos através dos meios de comunicação, geralmente nas mãos de grandes grupos dominados unicamente por interesses econômicos, sem qualquer compromisso com a ética e com os valores cristãos; nossos jovens estão se tornando presas fáceis de grupos internacionais de traficantes de drogas.

Esses são os desafios que enfrentamos nesse mundo globalizado. O Colégio Santo Américo está sempre muito atento a tudo isso e se renovando sempre para viver em sintonia com os tempos, sem, porém, abrir mão de seu compromisso de evangelizador e de seu ideal beneditino, de ser uma escola a serviço do Senhor.

Nestes quatro dias de convivência, queremos transmitir aos senhores participantes um pouco dessa nossa experiência e das nossas preocupações e angústias. E, ao mesmo tempo, ouvir e aprender da experiência dos senhores como melhor enfrentar esses desafios.

Que Deus nos ilumine e nos permita descobrir caminhos que, embora árduos e espinhosos, nos levem a melhor servi-lo.

OREMOS

Senhor, que vossa graça inspire as nossas ações e as sustente até o fim, 
para que todas as nossas orações e nossas atividades tenham sua fonte em Vós e de Vós recebam seu acabamento!
Por Cristo Nosso Senhor!

D. Abade Ernesto Linka, OSB